Capitais Europeias

Porto 2001 e Guimarães 2012 na imprensa nacional 

A cobertura mediática das duas edições do evento Capital Europeia da Cultura realizadas em Portugal, Porto 2001 e Guimarães 2012, é marcada por uma quebra da centralidade deste tipo de eventos na agenda dos diferentes suportes. O Jornal de Notícias e o Público, apesar de serem os jornais que mais vezes destacam o tema na 1ª página, não escapam a esta constatação.
A cobertura da Porto 2001 é marcada maioritariamente por aspetos relacionados com a Sociedade Anónima e as instituições públicas responsáveis pelo evento (o que ocupa os artigos de 1ª página são maioritariamente as áreas temáticas – música, literatura, dança, teatro, cinema… – em que as propostas programáticas se inserem e não tanto os próprios acontecimentos ou quem os apresenta).
Guimarães 2012 é dada a conhecer através dos testemunhos de individualidades (músicos, responsáveis políticos, atores, programadores), são eles que celebrizam o acontecimento.
Sendo as Capitais Europeias da Cultura eventos que permitem promover, em termos turísticos, as cidades que os acolhem, quer pela dotação de novos equipamentos culturais, quer pelo restauro de património, mas acima de tudo por se poderem posicionar como lugares de produção e inovação artísticas, constatamos que, com a diminuição do número de peças de um evento para o outro, a cobertura se deslocou da intervenção das instituições responsáveis pelo evento para a obra individual e se assistiu à substituição do coletivo pelo individual, ficando o evento centrado na produção e inovação artísticas dos seus autores.

O jornalista como promotor de eventos

Em termos de género jornalístico, a cobertura feita à Capital Europeia da Cultura no Porto foi realizada maioritariamente através de notícias com desenvolvimento e reportagens (em que predominam os estilos discursivos opinativo e descritivo), enquanto no caso de Guimarães, é realizada maioritariamente pelo género reportagem (estilos discursivos interpretativo e descritivo).
E de que tipo de reportagens estamos a falar? Aquelas em que o jornalista faz o roteiro (género que não existia em 2001), em que promove um percurso e incita à visita: “A Fugas de hoje mostra-lhe tudo o que não pode perder na cidade-berço” (jornal Público Fugas, 14 de janeiro de 2012, p. 3); o que nos interpela sob o ponto de vista de qual é a missão do jornalista: divulgar informação sobre o acontecimento para poder num momento ulterior conduzir a crítica aos acontecimentos ou funcionar como agente promotor de eventos, numa lógica em que a cultura serve o turismo e o jornalista o entretenimento?
O género jornalístico entrevista, fundamental à exposição da visão do mundo do outro, cai para metade de uma edição para outra, o que contribui para a promoção de um determinado lifestyle sugerido pelo jornalista e não por outros agentes sociais.
A cobertura mediática desviou-se da divulgação da programação dos eventos para a sugestão de roteiros de visita e pouco ou nada questiona o papel que as cidades, ao promover iniciativas deste tipo, têm enquanto lugares de inovação em termos de políticas culturais, de produção e inovação artística, na requalificação urbana e ambiental, na revitalização económica, na formação e criação de novos artistas e novos públicos.

Confronto entre o local e o nacional

Os responsáveis locais e os programadores deste tipo de eventos enfatizam precisamente a possibilidade que representam de regenerar as cidades, no entanto, este processo de regeneração está ausente da cobertura jornalística. As duas dimensões comunicativas não coincidem; pelo contrário, divergem.
Os responsáveis enfatizam o facto de ao dinamizarem políticas culturais, contribuírem para a transformação urbana, não só durante o ano em que decorre o evento, mas daí por diante. A cobertura jornalística centra-se no presente e tende a oferecer produtos fáceis de consumir.
A imprensa, ao demitir-se de refletir sobre o papel que estes eventos podem ter em desenvolver nas cidades práticas culturais continuadas e ao reduzir-se à promoção ocasional de roteiros turísticos de práticas de lazer, teima em cumprir objetivos de satisfação imediata e não a promoção cultural.

Publico capital cultura Porto 2001

 

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