Crítica – cada vez mais um género jornalístico

Herdeira da crítica literária e de alguns dos seus critérios (avaliação estética das obras em análise, com produção de juízos de gosto), a crítica jornalística é o discurso sobre uma obra de cultura que o autor, jornalista ou crítico da especialidade, produz após a sua análise. São as conhecidas críticas de livros, que cada vez mais substituíram a crítica literária, a crítica de filmes, de discos ou de espectáculos, sejam eles de teatro, de música, de dança, de exposições, etc.

Caracteriza-se por ser um discurso centrado numa obra específica e os leitores habituais do jornal podem confirmar a regularidade das assinaturas destes textos, onde os críticos constroem um espaço próprio de afirmação de pontos de vista.

Actualmente, as críticas de filmes, de livros, de discos apresentam classificações numéricas em forma de estrelas ou de pontuações, numa síntese de avaliação imediata para o público.

Ao contrário do que acontecia nos primeiros anos da década de 2000, em que  era bastante frequente encontrar nos suplementos do Público, Expresso e Diário de Notícias, mais do que uma crítica para um objecto cultural, por vários autores,  a prática corrente actual remete-nos para uma única abordagem crítica, com a consequente perda de pontos de vista e de discussão.

Estes três jornais mantiveram uma grande regularidade nos seus críticos associados a secções, criando nalguns casos a figura do crítico-autor.

Que competências ou formação se exige a um crítico ?

Das nossas entrevistas podemos concluir que, na opinião dos editores e dos jornalistas de cultura, essa competência adquire-se em exercício, fundamentalmente. Isto é, um crítico faz-se, enquanto tal, escrevendo críticas.  Não houve ninguém que apontasse como necessária uma especialização na

área sobre a qual escreve.

Com a profissionalização das redacções, verificamos que são cada vez mais numerosas as críticas assinadas por jornalistas da secção de cultura e menor a presença de colaboradores, sobretudo dos especialistas.

Este “aligeiramento” do discurso crítico, tem sido criticado nos sectores culturais e vale a pena recuperar  o que escreve o programador cultural António Pinto Ribeiro – “Que nos é legítimo esperar da crítica ?[1] —  “Depois da notícia preview que anuncia o evento, a crítica não é mais do que o review (sumário) e sucedâneo da notícia. E, no entanto, e paradoxalmente, esta crítica é fundamental para a obra, pois é a sua existência que lhe dá existência.”  E acrescenta aquilo que, no seu entender deve ser o lugar de uma crítica eficaz:

São, no entanto, ainda muitas e múltiplas as expectativas que legitimamente temos face à crítica, desde que se entenda que a crítica — hoje impossibilitada de avaliar se as obras de arte cumprem ou não, os protocolos exigidos pelos cânones da arte— deve deslocar-se da estética para a teoria das culturas. Isto implica que os críticos sejam obrigados a abandonar esse lugar intocável de observadores externos sobrevoando as obras.”

Também Silvina Rodrigues Lopes[2], na sua obra Literatura, Defesa do Atrito (2000) Lisboa, ed. Vendaval —  reflecte sobre as consequências do  jornalismo cultural na sua relação entre a literatura e a sociedade: “Hoje a crítica-mediação cedeu o lugar, quase por completo, aos desígnios do mercado que de um modo geral comanda as transformações do gosto. Nessa medida tende a prescindir da argumentação e a apresentar-se como o exercício de uma autoridade. Assim pode recorrer a todos os meios, inclusive aos princípios da crítica romântica que continuam a funcionar como evidências inquestionáveis sempre que se trata da rentabilização ideológica do campo literário — para justificar um ensino da literatura, para consagrar como heróis nacionais os escritores nobelizados, para atribuir prémios, para organizar comemorações, etc”.

Cada vez mais condicionada por critérios da actualidade e pela necessidade de simplificação da linguagem, a crítica tem vindo a tornar-se em muitos casos um texto de apresentação, perdendo a sua natureza reflexiva, argumentativa, crítica.

[1]          P. Ribeiro, António (2000) Ser feliz é imoral ? – ensaios sobre cultura, cidades e distribuição, Lisboa, Cotovia , p. 76 a 79

[2]             Lopes, Silvina Rodrigues (2000) Literatura, Defesa do Atrito (2000) Lisboa, ed. Vendaval