Crítica cultural

A crítica cultural é herdeira da Teoria Crítica, criação de um círculo intelectual constituído a partir dos anos 30 em torno do Instituto de Pesquisa Social (Institut für Sozialforschung), conhecido por Escola de Frankfurt e onde se destacam dois nomes principais: Theodor Adorno e Max Horkheimer.

O termo “indústria da cultura” foi cunhado por estes dois teóricos num  artigo publicado em 1947 para designar o fenómeno cultural nas sociedades modernas, mediatizadas e massificadas que, articuladas com estratégias de manipulação, produzem conteúdos irracionais e cumprem um efeito de dessublimação, por oposição a uma arte “autêntica.

A teoria crítica teve uma influência fundamental em inúmeros pensadores, em particular os teóricos marxistas, e está na base de uma atitude “crítica” que funda todo o exercício intelectual posterior ao período pós II Guerra Mundial. A crítica cultural é devedora da teoria crítica, na medida em que esta procurou combater a ideia de uma neutralidade da tecnologia e iluminar as condições em que uma sociedade organiza a vida dos seus indivíduos, a partir de uma escolha inicial entre alternativas históricas.

Herbert Marcuse, em O Homem Unidimensional, exprimiu bem as contradições da sociedade industrial: “A liberdade de pensamento, de expressão e de consciência eram – tal como a livre iniciativa que promoviam e protegiam – ideias essencialmente críticas, destinadas a substituir uma cultura material e intelectual envelhecida por uma outra mais produtiva e racional. Uma vez institucionalizados, estes direitos e liberdades compartilharam o destino da sociedade de que se tinham tornado parte integrante. A realização anula as premissas.

A crítica cultural, quando exercida no espaço dos media, foi inicialmente uma crítica literária, alargando-se depois a outros campos artísticos: a música, as artes plásticas e performativas, o cinema e a arquitectura.

Mas trata-se de um exercício que não pode escapar à própria crise política e social vigiada pelos fundadores da teoria crítica: na expressão de José Bragança de Miranda, “que fazer quando desaparece o tipo de experiência em que se apoiava a confiança dos clássicos e que lhes permitia separar os escritos menores da grande escrita?”

Muita crítica cultural, sobretudo aquela praticada no espaço do jornalismo, permanece arredada de uma tentativa de compreensão séria das relações entre arte e sociedade. A partir de 1960, a Nova Crítica, ensina todos a pensar o texto literário em si mesmo, coisificando a literatura e cortando as suas relações com a história.

Um dos pais da desconstrução, Jacques Derrida, deu em 1966 uma conferência na universidade norte-americana Johns Hopkins, denunciando o “sonho de decifrar a verdade” e uma importante escritora e crítica norte-americana, Susan Sontag, resumiu exemplarmente esta posição no título de um livro influente: “Contra a interpretação”.

Outros autores, um dos mais marcantes será Frederic Jameson, procuram inverter essa direcção, restaurando um esforço de “leitura política” (um dos seus livros, publicado na década de 1980, é justamente O Inconsciente Político) e buscando encontrar a riqueza de significados da produção estética, entendendo-a simultaneamente como um complexo de aspirações e desejos e um registo das limitações da história e da ideologia.

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