Cultura

Partimos para este trabalho com todo o peso das questões que se colocam à palavra “cultura” e num tempo em que “tanto as categorias tradicionais como as palavras com que falávamos de cultura parecem estar a perder significado” como  esclarece Bragança de Miranda na apresentação da sua obra Teoria da Cultura, (2002), Lisboa, Século XXI.

Encontramos ecos deste mal-estar, desde meados do século passado, quando T.S. Eliot nas suas Notas para a Cultura em 1946, decidiu interrogar o significado deste conceito:

… Nos últimos seis ou sete anos (os anos da guerra) é com crescente preocupação que tenho assistido ao evoluir da palavra cultura. É admissível que numa época de destruição sem precedentes, cultura tenha adquirido um papel de relevo no vocabulário jornalístico, naturalmente acompanhada pela palavra civilização.”(ed. portuguesa, Ed. Século XXI, Lisboa: 1996).
De certa forma, a cultura é a grande questão que atravessa todas as ciências sociais ao longo do século XX e não podemos por isso esquecer o terreno tão fértil quanto instável em que nos atrevemos. Recordemos algumas designações que têm adjectivado o  significado de “cultura”:

A definição antropológica (Levy-Strauss) – a cultura enquanto totalidade social.
Sociológica – a cultura enquanto repositório de todo o imaterial da sociedade.
Semiótica  – a cultura enquanto subproduto das trocas simbólicas (Bourdieu).
A cultura como arquivo de conhecimento – O capital cognitivo (Morin).
Cultura Medialógica (Regis Debray).
A Cultura de proposta e a Cultura de entretenimento (Umberto Eco).
Cultura pós-moderna – cultura contemporânea (Lyotard)
Cultura de consumo e cultura-espectáculo (Baudrillard, Guy Debord).

O que esta lista nos revela é a necessidade imperativa de adjectivar o conceito “cultura” de modo a circunscrever o seu significado a um determinado campo. Sem sucesso, no entanto, já que novas definições quotidianamente se impõem e parece não haver limites para a extensão desta palavra.

Procurar a “cultura” na primeira página dos jornais exige, por um lado a consciência de que esta é uma palavra “problemática”, e por outro o temporário e necessário esquecimento de todas as questões que a ela se colocam, para aderir à construção que cada jornal faz desta palavra.

Sabemos que a cultura é uma actividade ininterrupta, inscrita na dinâmica económica das sociedades, com os seus produtos e acontecimentos em contínuo.Todos os dias há mais filmes, livros, espectáculos, concertos, peças de teatro, exposições, do que aqueles que poderíamos ler, ver ou acompanhar, ainda que não fizéssemos mais nada para além disso.

Desta abundante produção resulta muitas vezes a ideia “naturalista” de cultura de que o “o homem produz cultura, tão naturalmente, como as abelhas produzem mel ou as aranhas fazem a sua teia”, na expressão feliz de José Bragança de Miranda.
Ao noticiar estas actividades, que designam “cultura”, os jornais  cumprem um duplo papel: são extensões daquilo que anunciam, e reforçam a sua natureza cultural.

Vamos fixar-nos naquilo que cada jornal anuncia como cultura: acontecimentos produzidos no campo das industrias culturais (música, cinema, literatura, teatro, ópera, dança, museus, património) ou protagonizados pelos actores do campo cultural: escritores, músicos, cineastas, actores, realizadores, políticos ou outros responsáveis pela actividade cultural.

Ainda assim, a instabilidade do conceito não se resolve nas páginas dos jornais, com cada um a criar o seu próprio recorte e a criar um “universo cultural” específico. De acordo com os seus públicos, com os seus recursos e com a sua “ideia” do que é ou deve ser cultura.

A selecção que cada jornal opera e os temas ou os acontecimentos de cultura que noticia, não podem deixar de ser vistos na sua dimensão política, por esse ser o campo da mediação entre a cultura e a sociedade.

É nosso propósito traçar um mapa que nos permita acompanhar a construção do campo cultural a partir das notícias publicadas na primeira página.

Desde logo: O que é “cultura” para cada um dos jornais ?
Que tendências sofreu esta componente nos jornais, na 1ª década do século ?
Que lugar ocupa a “cultura” na estratégia noticiosa e de construção da identidade do próprio jornal ?
Quem são os protagonistas da cultura e como se constroem ?
Quais os grandes temas e os acontecimentos que mobilizam a cobertura jornalística ?
Como convivem os critérios do campo jornalístico e os valores do campo cultural ?
Quem escreve e como se escreve sobre cultura ?
E, no limite, porque é que se tornou “natural” para as sociedades que os jornais incluíssem a cultura como um dos temas obrigatórios dos seus programas editoriais ?

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