Fotografar ou Ilustrar?

O destaque fotográfico impõe-se como o tipo de imagem predominante. Se no ano de 2000, 57% das imagens eram fotografias (com 518 fotografias, no universo das 911 peças jornalísticas publicadas nas primeiras páginas), essa tendência acentuou-se em 2010: as fotografias passaram a representar 71,2% do total de peças publicadas, embora em termos absolutos este valor represente menos fotografias – 455 – já que, globalmente, houve uma diminuição da presença dos assuntos culturais nas primeiras páginas dos jornais analisados.
Se considerarmos apenas as peças com imagem – que foram 583 em 2000 e 493 em 2010 – o peso da fotografia é esmagador: ronda os 90%.
A ilustração foi o outro tipo de imagem considerado neste estudo. Comparados estes dois anos, a ilustração diminuiu a sua presença em primeira página: representava 6% e 52 ilustrações (considerado o universo das peças jornalísticas em primeira página) e passou a estar abaixo dos 5%, com menos 22 ilustrações (tivemos 30 ilustrações nas primeiras páginas em 2010).
Podemos pensar em razões simbólicas e económicas para explicar a diminuição de importância da ilustração e o aumento da comunicação visual fotográfica.
As razões simbólicas relacionam-se com o significado atribuído culturalmente ao próprio medium. Neste caso, a fotografia contínua associada a valores de prova e objectividade, valores que o jornalismo chama a si. Enquanto a ilustração permite um trabalho autoral, imediatamente interpretativo e com forte apelo estético e diferenciador. A sua diminuição sugere que estes valores se tornaram, em termos globais, menos relevantes que a objectividade e prova circunstancial associados à fotografia. Bem como as conotações de modernidade.

Os factores económicos relacionam-se com os custos de produção e publicação, bem como com o factor tempo, que entra aí também como um custo em termos de ocupação de recursos humanos mas também em termos de eficácia do tempo curto exigido pelos média. Assim, sem dúvida, a evolução tecnológica verificada veio tornar mais barata a produção, impressão e divulgação de fotografias por comparação com a ilustração (mesmo tendo esta também diminuído os seus custos). A fotografia é também mais imediata do que a produção de uma ilustração.

ILUSTRAÇÃO CONTINUA REDUTO DOS DIÁRIOS DE REFERÊNCIA

A ilustração na primeira página é pouco expressiva mas, quando aparece, é nos jornais Público e Diário de Notícias. Nos dois anos que comparamos, 2000 e 2010,  a sua presença diminui: o Público publicou 27 ilustrações na primeira página, em 2000, baixando para apenas 13, em 2010.
O Diário de Notícias publicou 18 no ano 2000, e em 2010 já só encontramos 8 ilustrações nas primeiras páginas do DN. Parece ser, apesar do reduzido número, um factor distintivo destes jornais. No entanto, estes são também os dois jornais com mais fotografias nas primeiras páginas. As fotografias não são, por isso, típicas de jornais mais populares mas uma forma de comunicação visual que se impôs no panorama editorial.
Ao contrário, a ilustração, associada a um trabalho mais autoral, interpretativo, e por conseguinte subjectivo, parece associar-se bem a jornais dirigidos a públicos mais letrados, considerados habitualmente como leitores de jornais de referência ou de qualidade, por contraste com a imprensa tablóide ou popular (ver os trabalhos de Collin Sparks sobre estas classificações de jornais, por exemplo em <http://books.google.pt/books?id=xRc5IsjSPQgC&printsec=frontcover&hl=pt-PT&source=gbs_ge_summary_r&cad=0#v=onepage&q&f=false>)

CORREIO DA MANHÃ NÃO USA ILUSTRAÇÕES. EXPRESSO… TAMBÉM NÃO

O Correio da Manhã nunca recorre a este tipo de comunicação visual que tem também uma expressão ínfima no Jornal de Notícias. Contudo, ao contrário da expectativa que as referidas classificações entre jornais de qualidade e tablóides nos levariam a pensar, a ilustração tem uma presença muito reduzida no jornal Expresso, mesmo quando olhamos para os suplementos e páginas interiores.
Este jornal não publica qualquer ilustração em 2000 na primeira página do seu caderno principal, e nas páginas interiores e suplementos que considerámos na nossa amostra (analisamos apenas os desenvolvimentos das notícias de 1ª página),  contamos duas ilustrações nesse ano (2,6% das 76 imagens publicadas pelo Expresso nas páginas interiores das notícias de cultura da nossa amostra). Em 2010, já encontramos quatro ilustrações (em 18 imagens) em primeira página e duas em páginas interiores (em 39 imagens). No entanto, a presença deste tipo de imagem é demasiado diminuta para considerarmos que houve um reforço de presença significativo de um ano para o outro, no jornal Expresso.

VISÃO REFORÇA ILUSTRAÇÃO NAS PÁGINAS INTERIORES

Quanto à revista Visão, a ilustração não surge na capa em 2000, mas, nesse ano, registámos 3 ilustrações em páginas interiores, ilustrando matérias que foram assinaladas na capa, equivalendo a 7,8% das 38 imagens publicadas em 2000, nas páginas interiores da revista. Note-se que a nossa amostra de notícias de cultura em páginas interiores apenas contempla os desenvolvimentos daquelas notícias que mereceram destaque na primeira página. Não se trata, por isso, de um estudo sobre todo o universo de matérias culturais cobertos por estes jornais (metodologia que se aplica a todos os jornais). Ainda assim, no caso da Visão, registámos um aumento do peso da ilustração em 2010 nas páginas interiores, quando comparamos com os números do primeiro ano dessa década: 1 ilustração em capa mas 9 em páginas interiores, tendo estas um peso relativo de 27% das imagens de cultura.

VISÃO ULTRAPASSA PÚBLICO E DN NAS ILUSTRAÇÕES EM PÁGINAS INTERIORES

Os diários Público e Diário de Notícias usaram mais a ilustração como estratégia de visibilidade das notícias de cultura na primeira página, o que não aconteceu com a Revista Visão, onde a ilustração dos assuntos de cultura apenas surge na capa uma única vez no ano 2010.
Sem dúvida, existe para uma revista uma estratégia de capa bastante diferente da usada pelos jornais diários. Estes, habitualmente, têm mais temáticas nas primeiras páginas e mais espaços diferenciados do que as revistas, o que proporciona maiores oportunidades de publicação.
Porém, quando consideramos as páginas interiores, verificamos que o peso relativo da ilustração na revista Visão, em 2010, atingiu os 27% das suas imagens, enquanto o Público, nesse mesmo ano, apresenta um peso relativo de 4% e o DN de 5,1%. No caso do Público este valor significa mais ilustrações em números absolutos, com 16 ilustrações em páginas interiores, já que o DN publica 9, o mesmo número que a Visão, que, por ser semanal, conta com menos edições o que também justifica o maior peso que tem aí a opção “ilustração”.
Segundo os critérios usados no nosso estudo, e comparando as publicações semanais, a Visão dá claramente mais importância à ilustração do que o Expresso.

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