Imagens impõem-se na primeira década do século XXI

O desenho da primeira página como dispositivo de visibilidade e de destaque dos assuntos públicos passou a incluir muito mais imagens fotográficas ao longo da primeira década do século XXI. Esta conclusão é-nos sugerida pela análise comparativa para já, de apenas dois anos, o inicial e o final (2000 e 2010), desta primeira década do século XXI e extrapolada de um estudo sobre jornalismo cultural.
Embora o nosso estudo se restrinja ao jornalismo cultural, cuja presença diminuiu ao longo da década, os dados sugerem o reforço da aposta na imagem fotográfica como forma de comunicação privilegiada na primeira página dos jornais.
Se nas manchetes é esperada uma associação à fotografia, que ainda assim aumenta ao longo da década, tornando cada vez menor a presença de manchetes apenas textuais, no conjunto dos seis jornais analisados (Público, Diário de Notícias, Jornal de Notícias, Correio da Manhã, Expresso e Visão), a maior alteração regista-se na presença de fotografias nas chamadas de primeira página, presença que se tornou muito mais frequente no final da década.
Este fenómeno indicia uma alteração de contexto ou de “paisagem mediática” durante esta década. De facto, é fácil reconhecer uma maior presença social em termos de circulação, consumo e produção de imagens de todos as espécies, em particular de tipo fotográfico ou videográfico, no decurso deste período.
Televisão por cabo, computadores com acesso à internet e telefones móveis com câmaras incorporadas tornaram-se tecnologias com uma presença social massiva e, em particular o caso dos telemóveis, meios socialmente transversais em termos de classes sociais.
A literacia visual ter-se-á expandido, tornando estes apelos visuais muito mais exigíveis. Por outro lado, as tecnologias digitais facilitaram a produção e maquetagem dos jornais em papel, tornando mais fácil e barato a inserção de imagens. Além disso, o design das páginas web, assente em menus-ícones vieram transformar as chamadas de primeira página, que passaram, elas também, a lembrar os “ícones” da comunicação web.
Esta importação de um modelo de um suporte para outro, que Marshall McLuhan em tempos apelidou de “remediação”, parece-nos uma influência que justifica esta iconização da tradicional Chamada de Primeira Página, que constatámos neste estudo.

IMAGENS EM ALTA: A ERA DA IMAGEM

Sempre que existe um qualquer destaque das notícias de cultura na primeira página a tendência foi a de lhe dar destaque com imagem (seja fotografia seja ilustração). Em 2010, 77,2% das peças surgiam associadas a imagens enquanto em 2000 esse valor era de 64%.
Em termos absolutos, o ano 2000 fez publicar mais imagens relativas a notícias de cultura do que em 2010: das 911 peças publicadas, 583 tinham imagem; em 2010, o número de peças com imagem foi de 493. Porém, em termos relativos a probabilidade de termos imagens na primeira página aumentou nesta década.

Comments are closed.