Jornalismo cultural – Entre a cultura e o jornalismo

Não é certo que o jogo de linguagem da poesia seja como o da comunicação.
Wittgenstein, (1971:160).
Por jornalismo cultural entendemos, empiricamente, a parte do jornal que se dedica a temas ou acontecimentos de cultura. Nos jornais diários, essas noticias são tratadas na secção “Cultura” ou de “Artes” ou de “Espectáculos” e ao fim de semana, esperamos pelos suplementos culturais.
Para sairmos desta tautologia: jornalismo cultural – igual – a parte do jornal que trata temas de cultura, teremos que ir  um pouco mais longe.
A especialização dos jornais, acompanhando a autonomização de algumas áreas das sociedades contemporâneas, como  Política, Economia, Educação, Saúde, Desporto, levou à criação de secções editoriais específicas, com um grupo de jornalistas dedicados a cada tema, com um editor responsável, o que acabou por incluir também a “Cultura” como matéria noticiável de forma regular e contínua nas páginas dos jornais.
Algumas questões orientam a nossa reflexão:
1. O jornalismo cultural é o lugar de encontro das tensões e das diferenças destes dois campos: o jornalístico e o cultural, desenvolvendo-se entre estes dois grandes pólos— o pólo informativo e noticioso e o pólo estético, crítico.
2. As características e o modus operandi do jornalismo é, em vários aspectos o oposto da natureza daquilo que se ocupa: a arte, a literatura, o cinema, a música, etc.
3. Às exigências de actualidade das notícias contrapõe-se a perenidade das obras de cultura.
4.À necessidade de uma linguagem clara, resiste a densidade e a complexidade das linguagens artísticas.
5. À objectividade jornalística opõe-se a subjectividade e a autoridade do “autor”.
6. À tentação do juízo e da classificação do crítico opõe-se a polissemia da obra de arte.
7. Aos fins e propósitos (de valor-útil) da mediatização, responde a “inutilidade”, a finalidade sem fins da cultura.
8. A relevância jornalística, não é a relevância cultural. Um acontecimento não é a mesma coisa para o jornalismo ou para o meio cultural e artístico. Os valores-notícias não são categorias estéticas.
Esta tensão, em muitos casos inultrapassável, governa um campo que se tornou reconhecidamente importante, por ser o espaço de mediação entre a arte e a sociedade. E que, de certa forma, legitima algumas obras, autores e práticas culturais junto da sociedade, em detrimento de outras.
Mais interessante do que uma atitude niilista, na linha de Karl Kraus “O jornalismo impede o pensamento“, parece-nos ser a necessidade de observar este campo e procurar compreendê-lo. É inegável: o jornalismo cultural existe. Na década entre 2000 e 2010 temos as secções diárias de Cultura (Público, DN, JN, CM) e os suplementos de fim de semana.
Organizado em torno dos dois paradigmas — o noticioso e o crítico, — distribui os temas cultura entre as páginas da secção diária e os suplementos, que se distinguem sobretudo pelo espaço dedicado aos temas e pelos géneros jornalísticos mais frequentes.
Nas páginas da secção de cultura, encontramos mais notícias e notícias com desenvolvimento, relegando as críticas, as reportagens, as crónicas e os comentários para as páginas dos suplementos.
Que efeitos produzem tantas páginas de jornal ?
As respostas não são consensuais e a um aumento da cobertura noticiosa não corresponde necessariamente um enriquecimento da Opinião Pública sobre os fenómenos culturais.
Recuperamos o alerta de de Habermas no seu capítulo Do público que raciocina sobre cultura ao público que consome cultura[1] :
À medida que a cultura se torna mercadoria não só na sua forma, mas igualmente no seu conteúdo, aliena os momentos cuja absorção pressupõe alguma formação — sendo que a apropriação bem sucedida, por seu lado, eleva essa mesma categoria de apropriação. Não é já a padronização enquanto tal, mas antes essa pré-formação específica dos produtos que se dota de maturidade para o consumo, ou seja, da garantia de poderem ser assimilados sem exigências rigorosas, mas igualmente sem consequências sensíveis, que coloca a comercialização dos bens culturais numa proporção inversa à sua complexidade. Lidar com cultura exercita o espírito, ao passo que o consumo de cultura de massa não deixa qualquer rasto; transmite uma espécie de experiência que não é cumulativa, mas regressiva.” (p. 290).

[1]          Habermas, J. (2012) – A transformação estrutural da esfera pública, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian.