Jornalismo musical: um sub-campo especializado e selectivo

O  jornalismo musical, enquanto sub-género no âmbito do jornalismo de cultura, detém o poder de incluir ou excluir, qualificar ou desqualificar, legitimar ou não, dar voz e dar visibilidade a determinadas temáticas, grupos, instituições e acontecimentos, tendo um papel activo na construção do gosto e no consumo de música e uma função de selecção no jogo de inclusão/exclusão do campo artístico.

Num estudo efectuado por Eamonn Forde (2001), baseado em várias entrevistas a jornalistas de música no Reino Unido, o autor concluiu que, enquanto tradutores entre o artista e o consumidor, os profissionais se descreviam a si próprios como “escritores”, com necessidades diferentes daquelas que marcam a produção noticiosa no âmbito das chamadas “hard news”.

Considerando a especificidade do jornalismo cultural e utilizando o jornalismo de música como sub-género e estudo de caso, procuramos responder às seguintes questões: até que ponto é que as regras de escrita jornalística se aplicam ao jornalismo cultural, quando olhamos para peças de cariz informativo?

Será que as convenções presentes na consolidação do jornalismo moderno (separação entre factos e opinião, equilíbrio, “detachment”, obliteração da “voz” do jornalista, a primazia do concreto em detrimento do abstracto e a mobilização de recursos linguísticos que reflectem essa orientação, entre outros aspectos que se enquadram naquilo a que se denominam como rituais estratégicos da objectividade e, também, nas próprias competências da profissão, sobretudo ao nível do saber de narração) estão presentes em textos informativos que, discursivamente, são distintos de outros que assumem uma dimensão mais argumentativa, crítica ou analítica?

Podemos falar, além de um “jornalês”, de um “culturês”?

Com o intuito de explorar de forma aprofundada a estrutura de discurso do jornalismo cultural, no que diz respeito à sua relação com o discurso jornalístico de uma forma geral (em termos de convenções, normas e estilo de escrita), escolhemos, para uma análise discursiva e qualitativa, peças de cariz informativo que incidissem sobre o tema música (notícia, notícia com desenvolvimento, reportagem e entrevista), com referência na primeira página, assinadas por jornalistas da secção de cultura (e incluídas na secção de cultura das publicações – exclusão dos suplementos de cultura) dos jornais diários de informação geral em análise no projecto – Público, Diário de Notícias (DN), Jornal de Notícias (JN) e Correio da Manhã (CM) – nos anos de 2000 e 2010, tendo contabilizado, respectivamente, 54 e 55 peças enquadradas nesse âmbito.

Verificamos diversas demonstrações de autoridade, a nível discursivo, por parte dos jornalistas que assinam peças sobre música, sobretudo daqueles que se movimentam no campo como estando dedicados a sub-áreas específicas (géneros musicais) ou acontecimentos.

A condição de perito manifesta-se no conhecimento e “expertise” que o profissional demonstra na área, mesmo quando elabora uma peça de carácter informativo. Essa autoridade pode ser reiterada quando o jornalista recorre a uma linguagem hermética e a um conjunto considerável de referências do universo cultural com o qual o leitor-alvo do jornal deve estar familiarizado.

Assumindo-se como perito, o jornalista, mesmo em peças informativas mais convencionais, pode conferir ao seu texto uma dimensão híbrida, além da estrita informação, e bem mais próxima da análise e da crítica (Golin & Cardoso, 2009), através das constantes qualificações do acontecimento/dos protagonistas que descreve, demonstrando um conhecimento prévio que lhe permite fazer tais avaliações.

A análise das peças noticiosas sobre música evidencia, por outro lado, sobretudo em jornais diários portugueses considerados como sendo de referência ou de qualidade (Público e DN), a noção de escolha ou de selecção efectuada por um especialista, que sugere ao público não apenas o modo de ler ou de julgar um determinado assunto, evento ou protagonista, mas também indica o que deve ver e ouvir quando antecipa um dado acontecimento.

Apesar da distância que pode implicar um status de autoridade, com “expertise” na área em que se movimenta, o jornalista de música também quer aproximar-se do público, quer interpelá-lo, quer mostrar-lhe o que viu e ouviu.

Essa busca de proximidade pode ser mais explícita em termos linguísticos, por exemplo, na utilização da primeira pessoa do plural, nas perguntas de interpelo/apelo, na coloquialidade na escrita, ou, ainda, no recurso a uma pontuação expressiva.

Constatamos, com efeito, ao nível discursivo, uma dimensão subjectiva muito forte por parte do profissional, no que implica de envolvimento, imersão ou até de demarcação do evento. Convém referir, aqui, a coincidência entre o tipo de acontecimento ou área temática dentro do jornalismo de música e o tipo de jornalista que a cobre, em termos de autoria – caso dos festivais de música, com uma periodicidade regular.

Ao mesmo tempo que permite uma maior criatividade, estilização ou coloquialidade, a linguagem do jornalismo cultural revela por vezes uma sobre-lexicalização, talvez para procurar “envolver” o leitor em algo que, por algum motivo, não presenciou ao vivo (Gadini, s.d.). Essa sobre-lexicalização manifesta-se na utilização recorrente de adjectivos e de advérbios de modo e na presença vincada de recursos estilísticos, particularmente, metáforas, hipérboles e jogos de linguagem.

O jornalismo de música é selectivo, uma vez que certas áreas da música popular são ignoradas (Nunes, 2004), tendo centrado o seu estudo em três publicações consideradas como sendo de referência (Público, DN, Expresso). Na presente pesquisa, podemos confirmar essa selectividade ao nível dos protagonistas, assuntos e acontecimentos a destacar (sobretudo) no Público e no Diário de Notícias.

Já no Jornal de Notícias e no Correio da Manhã, jornais próximos do cariz popular, as estórias são outras, pelo menos as que foram alvo de destaque na primeira página – com uma ênfase na música pop (nacional e estrangeira) e na música popular/ligeira portuguesa.

A diferença a nível temático nestas quatro publicações também se manifesta a nível linguístico, quando atentamos à categoria da pressuposição (asserção implícita que está imersa no significado explícito de um texto). Manifestam-se ao nível da selecção temática (estando dessa forma relacionados com os modos de endereçamento das diversas publicações), mas também nos códigos partilhados pelos leitores que são público alvo dos diferentes jornais – quando se informa sobre um concerto, sobre um disco, sobre um festival, ou quando se faz uma entrevista a um músico.

No jornal Público, diário de informação geral que se assume como jornal de referência e dirigido a um leitor exigente, constatamos o uso de terminologias específicas e de códigos linguísticos particulares, que visam a compreensão por uma certa comunidade bem delimitada (Nunes, 2003).

JN Rui Veloso

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