Sobre os suplementos culturais: menos e mais generalistas

Suplementos de Cultura 

Dos cadernos temáticos aos suplementos generalistas

No ano  2000 encontramos um panorama rico e diversificado nos suplementos de Cultura dos jornais generalistas portugueses, através de cadernos dedicados a temas como a literatura, as artes, a musica e o cinema. Ao longo da década este cenário vai reflectir as crises que têm atingido a imprensa em geral (perda de leitores, perda de assinantes, redução das secções, partilha com o digital) e a crise económica em todos os sectores da sociedade.

Vejamos a evolução:

Público – três Suplementos Semanais temáticos, com redacções próprias, editorias, e colaboradores fixos: Sons, Artes e Leituras (até Novembro de 2000)

Sons: dedicado à música

Artes: dedicado à literatura, cinema, teatro, artes plásticas, aqruitectura, dança, BD, design, música clássica, etc.

Leituras: dedicado a livros, literatura, autores e editores e todos os temas relacionados com a actividade literária.
Diário de Notícias – DNA e DNMais.

DNMAIS – 16 páginas – (papel de jornal, amarelo)- Secções: cinema, video /dvd, música.

DNA – 46- 58 páginas

Secções: Impressões Digitais, Opinião, Postais DNA

Semanas portuguesas (Fotografia), Entrevista

Secções: Moda, Automóveis, Sons, Vinhos, Memória.

Logo no final do ano 2000 o Público remodela os três suplementos e  substitui-os por  dois novos  títulos semanais: Ypsilon (que substitui Sons) e  Milfolhas ( que substitui o Artes e o Leituras).

O Ypsilon sai à 6ª feira e trata sobretudo de música e de cinema, de concertos, de estreias de filmes e de lançamentos de discos.

O MilFolhas saía ao Sábado e era dedicado a temas como literatura, fotografia, artes plásticas, teatro, dança. Também é no Milfolhas que encontramos as crónicas e as colunas de opinião dos convidados (sobretudo vindos do campo cultural) especialistas das áreas sobre as quais escrevem.

Os dois suplementos complementam-se e afirmam dois olhares muito diferentes: o Milfolhas com uma abordagem mais próxima do campo cultural – (mantém a colaboração regular de cronistas e comentadores vindos da universidade e do campo artístico)  e o Ypsilon mais próximo do campo das indústrias da cultura.

O primeiro  numa tradição mais literária,  filosófica, crítica e interpretativa;  o segundo mais próximo de uma linguagem Pop, inspirado nas publicações anglófonas.

O mesmo se pode dizer do Diário de Notícias e dos seus dois suplementos, DNA e DNMAIS.  O DNA é um projecto autónomo, com uma redacção própria dirigida por Pedro Rolo Duarte e assume-se como um suplemento dos grandes temas, com destaque para os temas culturais. O DNMais é um suplemento iminentemente de crítica de música, cinema e video.

O ano de 2006 volta a trazer  mudanças: no Diário de Notícias terminam o DNA e o DNMúsica ( que tinha substituído o DNMais) e surge a revista 6ª.

Em 2007 também o Público reúne os dois suplementos – Milfolhas e Ypsilon – e lança o suplemento único à 6ª feira – o Ipsilon que ainda se mantém.
Estes suplementos deram lugar a qualquer coisa de novo, um híbrido entre os anteriores, mas onde claramente vingou a linha, a abordagem, a concepção jornalística, em detrimento da linha estética.  Com o fim dos suplementos DNA e Milfolhas, terminou a grande e diversificada galeria de colaboradores externos que escreviam no jornal,  e os novos IPSILON e 6ª Feira, embora acolham os temas antes tratados nos outros suplementos (literatura, por exemplo), fazem-no de maneira diferente.

O número de páginas, consequentemente é também menor, e o espaço para a crítica e para as longas peças de desenvolvimento, como os dossiers e o ensaio, vai sendo disputado pelas entrevistas, perfis, roteiros, reportagens.
Entre todas as alterações que todos os jornais sofreram em relação aos suplementos, o mais surpreendente é o facto de o Diário de Notícias ter deixado de ter um suplemento de cultura entre 2008 e 2012.  Durante estes quatro anos, os temas de cultura são tratados de forma avulsa e irregular nos suplementos de fim de semana:  Revista de Sábado (NS) ou na revista Notícias Magazine, que sai ao Domingo.
Ao longo da década, o Expresso é um dos títulos com maior regularidade quanto ao tratamento da cultura. Um suplemento – Cartaz – que em 2003 muda de nome, de formato e de lay-out, dando origem ao Actual, mas que mantém o mesmo tipo de abordagens e a mesma redacção e colaboradores. Um suplemento de crítica, orientado para os temas da actualidade musical, cinematográfica ou literária.
A revista Visão tem uma secção de cultura bastante desenvolvida e um Suplemento — Visão 7, que pretende ser um cartaz de eventos e de programação, onde podemos encontrar temas como a crítica de filmes e de espectáculos e programas turísticos de fim de semana, crítica gastronómica ou de vinhos, sugestões de viagens e passeios.

Concluindo: entre 2000 e 2010 são assinaláveis as seguintes perdas no jornalismo cultural:

1. Menos Suplementos

- em 2000 o Público tinha três suplementos especializados e em 2010 apenas um.

- o Diário de Notícias tinha dois e em 2010 não tem nenhum.

- O Expresso manteve o seu suplemento cultural, mas com muito menos páginas (de 92 para 42).

- A Visão reduziu as páginas da sua secção de cultura (de mais de 60 para menos de 40).

- O Jornal de Notícias e o Correio da Manhã continuaram (e continuam) sem suplemento de cultura.

2. O fim dos cadernos temáticos e abordagens mais generalistas.

3. Redacções com menos jornalistas e menos colaboradores

4. Muito menor participação de protagonistas do campo cultural: cíticos, ensaistas, filósofos, artistas.

5. Menos páginas dedicadas aos temas de cultura.

6. Maior homogeneidade dos temas em destaque nos vários suplementos.

7. Menos artigos de crítica e mais entrevistas e reportagens.

 

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