Suplementos de Cultura: Uma tendência crescente para a fulanização

Comprar e ler o jornal, discutir as notícias, consultar as programações para escolher um filme, ou visitar uma exposição faz parte dos hábitos das sociedades urbanas.

Desta forma, os jornais são elementos fundamentais na actividade cultural na qual participam activamente, em dois aspectos:

1- Enquanto prescritores e legitimadores do campo cultural (através da divulgação, mas também da avaliação, classificação de obras e acontecimentos);
2- E como espaço a partir do qual se define e classifica o campo cultural; isto é, ao classificarem como “cultura” determinados acontecimentos, em detrimento de outros, os jornais recortam um universo próprio a partir de toda a realidade e constroem o seu próprio “campo cultural”.

Isto significa que cada jornal tem uma ideologia do que é cultura e de qual deve ser o seu papel nesse jogo de forças.

Tomemos os Sumários ou Índices dos suplementos de cultura como matéria e sintoma daquilo a que os jornais chamam “cultura”.

Nos primeiros anos da década de 2000, e continuando o que já se verificava nos anos de 1990, os suplementos de cultura apresentam temas: Literatura, Cinema, Dança, Artes Plásticas, Música, Teatro, Fotografia, Arquitectura, etc.

Nesta enunciação podemos ler um posicionamento ideológico face á missão do próprio jornal: a ambição de participar nessa totalidade ou dela dar conta em toda a sua extensão.

A este posicionamento não será alheia a ideologia de cultura nos media como prestação de serviço público e de mediador entre o campo cultural e a sociedade, herdada das grandes utopias de democratização da cultura, sobretudo da teoria marxista em que a cultura é um factor insispensável no projecto de transformação da sociedade.

A partir de 2005, 2006, podemos verificar uma alteração no léxico dos sumários: em vez de literatura, livros; em vez de cinema, filmes, estreias ou festivais, em vez de artes, exposições, em vez de música, concertos ou discos.

Os grandes temas são substituídos pelo acontecimentos concretos, com data e local. Esta mudança de ponto de vista, pode ser entendida como um momento de afirmação do noticioso face ao cultural, do factual sobre o temático.

As consequências são evidentes: os suplementos de cultura estão agora mais dependentes da agenda dos produtores e dos programadores. Por todo o lado emergem os acontecimentos e super-acontecimentos, como estratégias de produção e divulgação cultural. Por ex: os festivais de música, de cinema de vários géneros, de literatura, de design, que surgiram nesta década em Portugal.

Poderíamos falar de um paradigma do acontecimento, em substituição do paradigma temático.

Porém, no final da década, e a partir de 2007, 2008 a perspectiva pela qual os jornais nos apresentam os seus assuntos é ainda mais “fechada”. Já não está centrada nos acontecimentos, mas sobretudo nos seus protagonistas. E assim, tanto os sumários como os índices são listas de nomes de autores, de intérpretes, de músicos, de realizadores.

A apresentação dos suplementos e a organização das suas páginas mostra como os próprios suplementos culturais cederam a uma tendência de fulanização das abordagens e centraram o seu interesse na figura dos autores, tornado-os celebridades do campo cultural.

Esta viragem revela uma abordagem cada vez mais estreita dos temas e dos acontecimentos culturais, com prejuízo da análise, da crítica e do debate.

Os géneros jornalísticos como a crítica, o comentário ou o ensaio vão sendo substituídos pela grande entrevista de perfil, onde mais do que a obra, interessa a figura do sujeito e as suas idiossincrasias pessoais.

 

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